Sobre a Reforma Agrária.
Por Camila Schindler
Brasil, o celeiro do mundo que ainda passa fome.
Com pouco mais de 200 milhões de habitantes, o Brasil hoje produz alimentos suficientes para as necessidades calóricas de aproximadamente 900 milhões de pessoas, o que equivale a 11% da população global.
Mas se engana quem pensa que esses dados são revertidos para alimentar a população, o agronegócio é um mercado dominado globalmente por um seleto grupo de multinacionais, o foco está no atendimento da demanda global por commodities, e não na segurança alimentar do povo brasileiro.
Além de não alimentar, não contribui para o crescimento econômico.
A média de participação do agronegócio na riqueza nacional é de 5%. Além de ser o setor que gera menos postos de trabalho com carteira assinada e tem o menor salário. Seus lucros vão para o circuito financeiro internacional, logo, não beneficiam o território em que é produzido. As trades, grandes empresas que comercializam grande parte das commodities aqui produzida, enviam seus lucros para suas matrizes ou para paraísos fiscais que, obviamente, não são brasileiras. O agronegócio é, portanto, nada mais e nada menos do que um negócio.
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O Brasil tem 388 milhões de hectares de terras agricultáveis com pequenas, médias e grandes propriedades, cerca de 42% do território nacional.
A empresarial controla 70% dessa área e as pequenas 30%. Mas a propriedade familiar fica com 10% dos créditos dados pelo governo e produz 50% da safra anual. Enquanto a empresarial fica com 70% desses créditos e também produz 50%.
Essa alta produção tem um custo gigantesco para natureza, a agropecuária provocou 97% da perda de vegetação nativa no território brasileiro. A destruição se concentrou em duas regiões (Amazônia e Matopiba) onde a sociobiodiversidade tem sido rapidamente transformada em pasto, desrespeitando territórios de povos originários e reservas ecológicas; o uso abusivo de água; as graves consequências da contaminação pelo uso excessivo de agrotóxicos, e a exploração da classe trabalhadora, inclusive com inúmeras denúncias de trabalho escravo, estão entre os diversos fatores a serem quantificados para se calcular a dívida ecológica gerada pelo agronegócio no Brasil.
O Brasil é o maior exportador mundial de soja (56% das exportações totais), milho (31%), café (27%), açúcar (44%), suco de laranja (76%)
Para mais informações e checagem de fontes:
https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-10/censo-agropecuario-brasil-tem-5-milhoes-de-estabelecimentos-rurais
https://library.fes.de/pdf-files/bueros/brasilien/18319-20211027.pdf
Boi, Bala e Bíblia
A agenda predatória da bancada ruralista é abusiva, vai além de assuntos ligados ao agro e inclui o armamentismo e o ataque aos direitos socioambientais em geral. Os seus projetos de lei mais recentes envolvem a grilagem de terras públicas, a legalização das invasões em terras indígenas, a destruição de florestas urbanas, a desregulamentação do uso e venda de agrotóxicos e o enfraquecimento do licenciamento ambiental.
Os efeitos dessa agenda predatória estão agravando o isolamento do Brasil em âmbito global. Apesar da conjuntura favorável aos preços das commodities agrícolas, a política anti ambiental do governo, fomentada pelos ruralistas, tornou-se o principal obstáculo à adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e à concretização do acordo comercial entre o Mercosul e a União Européia.
Mas a agenda predatória tem efeitos muito mais perversos, ao contribuir para o agravamento das condições do clima, não só em relação ao aquecimento global, mas também no país. Secas e enchentes catastróficas têm ocorrido com crescente frequência, impactando populações urbanas e ribeirinhas, além da produção agropecuária e da geração de energia.
https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/bancada-da-devastacao
Herdeiro de terra e derramamento de sangue
Na história do Brasil, os governos têm financiado continuamente a produção agropecuária e a divisão desses recursos sempre favoreceu os grandes proprietários de terras.
É o Estado brasileiro o responsável pela maior quantidade dos créditos disponibilizados à agricultura e à pecuária. O agro recebe um monte de dinheiro enquanto a agricultura camponesa ou familiar recebe pouco recurso público.
Na raiz da desigualdade social está a concentração de terras rurais nas mãos de poucas famílias ou empresas.
Existem, hoje, no Brasil, mais de seis milhões de propriedades rurais, mas metade da área rural pertence a apenas 1% dos proprietários e posseiros. Essa ínfima minoria é, em essência, patrimonialista, mais do que produtivista.
Desde a Colônia, as “plantations” (latifúndios monocultores com a produção voltada à exportação) se expandiram e lucraram com a exploração da mão-de-obra escrava. O latifúndio, mais do que uma extensão de terra, é um sistema de dominação que está na base do poder dos proprietários, como um mecanismo de controle social, garantindo a formação de um mercado de trabalho pautado na exploração da força de trabalho e na exclusão sistemática das populações tradicionais, como indígenas, quilombolas e camponeses.
No Brasil, a agropecuária é o setor que mais recruta pessoas para trabalhar em
condição de escravidão contemporânea. Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra, de 1995 a 2022,
59.762 trabalhadores rurais foram resgatados de situação de escravidão contemporânea no campo brasileiro.
Para mais informações e checagem de fonte:
https://seer.ufu.br/index.php/campoterritorio/article/view/73598/40069
O AGRO É TÓXICO
O mercado de agrotóxicos movimenta no Brasil, em média, US$ 10 bilhões anualmente. As indústrias desse setor são desoneradas integralmente de vários impostos e usufruem de desoneração parcial de ICMS e de Imposto de Importação,
Segundo estudo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, da FIOCRUZ e da UFRRJ, as isenções e reduções de imposto das empresas produtoras de agrotóxicos somam quase 10 bilhões de reais ao ano. Isso equivale a quase quatro vezes o orçamento do Ministério do Meio Ambiente, em 2020 (2,7 bilhões).
Nos últimos 14 anos, o BNDES emprestou 358,3 milhões a empresas do setor (com juros subsidiados pelo governo). Por sua vez, a Finep, uma agência pública que financia inovação em empresas, repassou 390 milhões para pesquisa às grandes produtoras de pesticidas
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Fora o prejuízo aos cofres públicos, o resultado dessa engenharia da morte é que a presença de herbicidas nos alimentos tende a ser fatal à saúde humana.
Existem quatro graves consequências:
1- neurotoxicidade, age diretamente no sistema nervoso periférico, causam sérios problemas, principalmente em crianças, como alteração no QI, déficit de atenção, hiperatividade, autismo e transtornos psiquiátricos. Na vida adulta, é o gatilho para uma série de doenças neurológicas.
2- toxicidade endócrina, que afeta os órgãos regulados por hormônios. As principais doenças são obesidade, diabetes, infertilidade, puberdade precoce e o câncer em órgãos que dependem de hormônio – mama, próstata, ovário e testículo.
3- câncer. O glifosato, agrotóxico mais utilizado, é, de acordo com inúmeros estudos científicos, altamente cancerígeno. Pesquisas recentes relacionam os pesticidas à incidência de leucemia, linfomas e tumores sólidos no sistema nervoso central.
4- disbiose intestinal, um desequilíbrio causado pela diminuição do número de bactérias boas do intestino e o aumento das bactérias capazes de causar doença.
https://www.cartacapital.com.br/sociedade/numero-de-mortes-e-doencas-causadas-por-agrotoxicos-esta-subestimado-diz-pesquisadora/. el a todos
https://www.brasildefato.com.br/2023/11/05/doencas-neurologicas-ligadas-a-uso-de-agrotoxicos-crescem-600-em-cidade-paraense/
Cerrado
Além da beleza absurda, o Cerrado localiza-se em uma área com grande potencial aquífero e diversos tipos de vegetações. Abrange cerca de 22% do território brasileiro e é o segundo maior Bioma do Brasil.
O Cerrado concentra 52% de toda a derrubada de mata nativa registrada no Brasil em 2024. A ampla permissão para desmatamento nesse bioma está entre os principais fatores para a devastação. De acordo com o que estabelece o Código Florestal, os donos de propriedades rurais no Cerrado precisam manter apenas 20% de reserva florestal. Na Amazônia, a reserva legal em propriedades rurais deve ocupar 80% da área total do imóvel.
O Cerrado é hoje o bioma que mais concentra atividades agropecuárias, Em cinquenta anos, o bioma perdeu 38 milhões de hectares, a vegetação original foi reduzida em 50%, sendo que 30% da área foi destinada para fins pecuários.
O desmatamento avança principalmente na área da região nomeada de Matopiba, entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. As áreas de atividades agropecuárias ocupam cerca de 35% de todo o território. São mais de 15 milhões de hectares de pastagens e quase 5 milhões de hectares de soja, principal atividade agrícola da região.
Para mais informações e checagem de fonte:
https://www.brasildefato.com.br/2025/05/15/mais-de-97-do-desmatamento-no-brasil-nos-ultimos-anos-e-resultado-de-pressao-do-agronegocio-aponta-estudo/
Reforma Agrária, a promessa que precisa ser cumprida.
Já podemos perceber que o agro não é pop, nem tech, muito menos tudo.
O Agro molda, defende e planeja uma estrutura político-econômica de produção de alimentos que deságua no aumento da fome. Por isso, a insegurança alimentar no Brasil não é uma consequência ou uma falha do sistema econômico, mas, sim, projeto.
É preciso desmontar os mitos que vendem o Agro como motor do país e como fonte de alimento para o mundo. A captura ideológica permeia todas as esferas da indústria cultural e é preciso urgentemente fazer frente a isso. E mais do que isso. É preciso entender que existem, sim, alternativas e que elas passam por pensar a economia em bases justas, que beneficiem a coletividade e o ambiente/natureza.
Somos um dos poucos países do mundo que não fizemos uma redistribuição significativa de terras.
A reforma agrária é uma solução para geração de empregos, distribuição de renda e preservação da natureza, garantindo a soberania alimentar.
Qrcode: https://reporterbrasil.org.br/2025/04/comida-cara-falta-reforma-agraria/